*Por A. W. Tozer

Não me lembro de outro período em que a fé tenha sido tão popular como hoje. Depois da primeira guerra mundial, o homem de fé era considerado fraco, e ficava tremendamente para trás na tendência intelectual predominante no mundo de hoje. Mas, desde o fim da segunda guerra mundial, o pêndulo pendeu extremamente noutra direção. A fé tornou a receber o favor de quase toda gente. O cientista, o motorista de táxi, o filósofo, a atriz, o político, o concorrente a prêmios, a dona de casa – todos estão prontos para recomendar a fé como panacéia para todos os males – morais, espirituais e econômicos.
Se tão-somente crermos, faremos de algum modo o que for preciso, ainda que muito difícil. Assim corre a cantiga popular. O que você crê não tem importância. Creia apenas. Judeu, católico, romano, místico naturalista, ocultista, “swamista”, mórmon, sufista, poeta lunático sem convicções religiosas, sonhador político ou aspirante a uma casa de campo em Urano ou Marte – simplesmente creia e, tenha paz, será maravilhoso. Logo um mundo sem doenças e sem guerras emergirá das névoas, habitado por uma raça sem classes, sem credos e sem cor, os homens viverão irmanados nisso e naquilo.
Subjacente a isso está a nebulosa idéia de que a fé é uma energia onipotente a fluir pelo universo e à qual quem quiser pode ligar-se a seu bel-prazer. É concebida vagamente como uma pulsação criadora e sub-racional que jorra para baixo, proveniente de algum “ponto lá em cima”, todo o tempo pronta para entrar em nossos corações e mudar toda a nossa constituição moral e mental, bem como toda a nossa maneira de ver o homem, Deus e o cosmos. Quando ela entra, saem o pessimismo, o medo, a derrota e o fracasso; entram com ela o otimismo, a confiança, o autodomínio pessoal, e o infalível sucesso na guerra, no amor, nos esportes, nos negócios e na política.
É claro que tudo isso são fiapos etéreos de engano pessoal, tecidos com os insubstanciais fios da fantasia trançada pela mente de pessoas de coração mole que querem acreditar nisso. É uma forma de transcendentalismo pobre que, na forma em que o temos hoje, descende do transcendentalismo mais literário e mais respeitável da Nova Inglaterra de um século atrás.
O transcendentalismo é uma espécie de religião sem credo, resultante da vontade de crer e da falta de vontade de crer nas Escrituras Sagradas. Descobrir os princípios do transcendentalismo é extremamente difícil, se é que existe realmente algum princípio; mas Émerson nos deu uma sugestão quando disse: “Crer consiste em aceitar as afirmações da alma; não crer, em negá-las”. Creio que se pode tomar isto como um sumário da fé religiosa de Émerson, e certamente é uma precisa descrição da fé humanística das massas semicristãs de hoje.
O que é deixado de lado em quase tudo isso é que a fé só é boa quando está comprometida com a verdade; quando se apóia na falsidade, pode levar à tragédia eterna, e é o que muitas vezes faz. Pois não basta crermos; temos de crer na coisa certa, a respeito do Ser certo. Crer em Deus é mais do que crer que Ele existe. Acabe e Judas criam nisso. A uma fé certa é necessário conhecimento. Precisamos pelo menos saber algo daquilo a que Deus se assemelha, e qual é a sua vontade para as suas criaturas humanas. Saber menos que isso é ser lançado de volta à necessidade de aceitar as afirmações da alma e substituir por “Assim diz a minha alma” o bíblico “Assim diz o Senhor”.
A fé verdadeira exige que creiamos em tudo que Deus disse acerca de Si mesmo, mas também que creiamos em tudo que Ele disse acerca de nós. Enquanto não crermos que somos maus como Deus diz que somos, não poderemos crer que Ele fará por nós aquilo que Ele diz que fará. Aqui o certo está onde se rompe a religião popular. Esta nunca aceita a severidade de Deus ou a depravação do homem. Salienta a bondade de Deus e a infelicidade do homem. O pecado é uma fragilidade perdoável, e Deus não Se preocupa muito com ele. Ele simplesmente quer que confiemos na Sua bondade.
Crer deste modo é basear a fé na falsidade e edificar a nossa esperança eterna sobre a areia. Ninguém tem o direito de selecionar o que quiser dentre as verdades reveladas. Deus falou. Todos estamos debaixo da solene obrigação de ouvir as afirmações do Espírito Santo.
Manipular as Escrituras de molde a fazê-las escusar-nos, elogiar-nos e consolar-nos é menosprezar a Palavra escrita e rejeitar a Palavra Viva. Crer salvadoramente em Jesus Cristo é crer em tudo que Ele disse de Si mesmo e em tudo o que os profetas e apóstolos disseram sobre Ele. Conscientizemo-nos de que o Jesus que nós “aceitamos” não é um que criamos com o pó da nossa imaginação e formamos à nossa semelhança.
A verdadeira fé nos compele à obediência. “Viemos a receber graça e apostolado por amo do seu nome”, diz Paulo, “para a obediência por fé, entre todos os gentios” (Rm. 1:5). A fé sonhadora e sentimental que ignora os juízos de Deus contra nós e dá ouvidos às afirmações da alma é mortal como o cianido. A fé que aceita passivamente todos os textos agradáveis das Escrituras, ao passo que deixa de lado ou rejeita as severas advertências e mandamentos das mesmas Escrituras, não é a fé a respeito da qual Cristo e os seus apóstolos falaram. Fé na fé é fé perdida. Esperar pelo céu por meio dessa fé é vagar no escuro através de abismo profundo, numa ponte que não chega ao outro lado.
Editora Mundo Cristão, 1ª Edição, 1981,
Título original em inglês “Of God and Men,
Christian Publications Inc., 1960