A PALAVRA CRIADORA*

* Por Santo Agostinho (354-430)

“De que modo, porém, criastes o céu e a terra e qual foi a máquina de que Vos servistes para esta obra tão imensa, se não precedestes como o artífice que forma um corpo de outro corpo, impondo-lhe, segundo a concepção da sua mente vigorosa, a imagem que vê em si mesma, com os olhos do espírito? Donde lhe viria esse poder, se Vós não lhe tivesses criado a imaginação?


O artífice impõe a forma à matéria – a qual já existia e já a continha – isto é, à terra ou à pedra, ou à madeira ou ao ouro ou a qualquer coisa material. Mas donde proviriam estes seres, se não os tivésseis criado? Fizestes ao artífice o corpo, fizestes-lhe a alma que impera aos membros. Criastes a matéria com que fabrica os objetos, a inspiração com que ele concebe a arte e vê internamente o plano que executa no exterior.

Concedestes ao artista os sentidos do corpo, com os quais, servindo-se deles como de intérpretes, transpõe da fantasia para a matéria a figura que deseja realizar. Com eles anuncia ao espírito o que faz, para que este lá dentro pergunte à Verdade – juiz da alma – se a obra foi bem realizada.

Todas estas criaturas Vos louvam como Criador de tudo. Mas, de que modo as fazeis? Como fizestes, meu Deus, o céu e a terra? Sem dúvida, não fizestes o céu e a terra, no céu e na terra, nem no ar ou nas águas porque também estes pertencem ao céu e à terra. Nem criastes o Universo no Universo, porque antes de o criardes não havia espaço onde pudesse existir. Nem tínheis à mão matéria alguma com que modelásseis o céu e a terra. Nesse caso, donde viria essa matéria que Vós não criáreis e com a qual pudesses fabricar alguma coisa? Que criatura existe que não exija a Vossa existência?

Portanto, é necessário concluir que falastes e os seres foram criados. Vós os criastes pela vossa palavra!”


(Agostinho, Santo – “Confissões”, 398 d.C.,
Ed. Universitária São Francisco, 2006)